Quarta-feira, Maio 28, 2008

 

Teatro do Elefante comemora o Dia da Criança


Apesar de não ter dado notícias há algum tempo, o Teatro do Elefante continua, pelo país fora, a animar o dia das crianças. No passado fim-de-semana o espéctaculo 'IpiNÊSpês' foi apresentado em Vendas de Azeitão, durante as comemorações do aniversário do Grupo Musical e Desportivo União e Progresso.

As três sessões contaram com um pouco de tudo, mas nada que se compare à adesão e interacção dos bebés com a protagonista, que tornaram esta experiência mais uma a relembrar.


Entre os dias 28 de Maio e 2 de Junho vamos andar pelos lados do Alentejo e Algarve. Qualquer novidade será anunciada aqui, mas se quiser estar mais atento aos passos do Elefante, pode ouvir-nos todas as quartas-feiras, pela manhã, na Rádio Azul, de Setúbal.


Deixamos aqui informações sobre as próximas apresentações:

Dia 28 de Maio - Lagos

Animação com balões

Dia 29 de Maio - Alvito e Lagos
Animações de rua e escultura com balões

Dia 30 de Maio - Alvito
Animação de rua

Dia 31 de Maio - Alvito e Lagos
Animação de rua e palhaços tradicionais

Dia 1 de Junho - Alvito e Barrancos
Animação de rua e escultura com balões

Dia 2 de Junho - Ourique
Apresentação do Espéctaculo - 'A Sopa da Pedra'

'A Sopa da Pedra', peça para crianças com idades entre os 3 e os 10 anos
Texto por Marlene Aldeia

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

 

Teatro para Bébés em Corroios e em Lisboa

O Teatro do Elefante (TE) tem estado longe da blogosfera, mas continua vivo no mundo real. Entre as comemorações do 10º aniversário e a colaboração com músicos de jazz, ainda houve tempo para a estreia de um novo espectáculo: 'Ulisses'. Regressados dessa longa viagem, o TE prepara-se para outras viagens que vão surgindo ao longo do percurso da companhia.

É inevitável parar e o teatro para bébés leva-nos uma vez mais a territórios uterinos. Vamos estar a apresentar os dois espectáculos 'Blim-Zim-Zim' e 'IpiNÊSpês' primeiro em Corroios e depois em Lisboa nos próximos dias. Deixamos a sugestão:


Blim-Zim-Zim - Teatro para Bébés

Dias 23 e 24 de Fevereiro e dia 1 de Março às 11.00 e às 15.00

Centro Cultural e Recreativo de Alto do Moinho

Salão da Cooperativa

Corroios - Seixal




IpiNÊSpês - Teatro para Bébés

Para creches: De 3 a 7 e de 10 a 14 de Março às 10.00 e às 11.00

Para Púbico: Dias 8 e 9 de Março às 11.00 e às 15.00

Sala do IPJ Moscavide - Parque das Nações - Lisboa

Contactos para reservas (ambos os espectáculos):

265 535 640 - 96 640 30 48

elefante@teatrodoelefante.net


Para os mais curiosos, deixamos o link onde poderão ter um gostinho daquilo que podem experienciar em 'IpiNÊSpês'

http://www.youtube.com/user/TeatroDoElefante


Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

 

GENTE GIRA (pelo que dizem...)

PUBLICAÇÃO INTEGRAL DA ENTREVISTA CONCEDIDA AO JORNALISTA ANTÓNIO LUÍS, DO CORREIO DE SETÚBAL
1 - Qual o seu grande sonho profissional?
R - Gosto de citar o poeta: pelo sonho é que vamos. E de cada vez que realizamos, novos sonhos nascem e crescem dentro de nós. O maior sonho realiza-se no sorriso de um espectador emocionado.

2 - Como e quando surgiu o gosto pelo teatro?
R - Quando um grupo de actores apresentou um espectáculo na escola que eu frequentava, a actual escola básica de Bocage.

3 - Que mais gosta de fazer nos tempos livres?
R - Ler e apanhar sol. Sou como um caracol, com a diferença que eu vou conseguindo ler entre um espectáculo e um ensaio.

4 - Que balanço faz da criação e gestão do Teatro do Elefante?
R - É como no primeiro dia o meu projecto de vida. Sem o TE, sem as preocupações, as pequenas vitórias e as desilusões, a minha vida seria provavelmente pouco mais que a morna pachorrice dos dias mais acinzentados da vida comum.

5 - Idade, signo, naturalidade e residência?
R - 44 anos, Touro, cidadão do mundo nascido na cidade de Setúbal (freguesia de São Julião).

6 - Qual a personagem que mais gostou de interpretar até à data?
R - Ulisses

7 - Actores preferidos?
R - Rita Sales

8 - A sua passagem pelo TAS foi um pouco atribulada... Quantos anos lá esteve?
R - A expressão “atribulada” é da sua autoria, e trata-se de um termo cuja utilização neste contexto não subscrevo. Ao longo da minha vida profissional participei em diversos projectos que me forneceram um conjunto vasto de ferramentas e materiais necessários para decidir acerca dos caminhos que quero e considero importante trilhar.

9 - Que formação teatral possui?
R - A última formação concluída é o curso de Mestrado em Estudos de Teatro da Faculdade de Letras de Lisboa. Antes tinha um Diploma de Estudos Superiores Especializados (Licenciatura) em Teatro e Educação, da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, que fiz após o curso de Formação de actores, concluído na mesma escola. Ainda nesta fase inicial da minha vida académica, especializei-me em Dramaturgia. Quanto a outras “fontes”, bebi muito das várias acções oferecidas pela Gulbenkian, pelo CCB e, de um grupo dinamarquês, de nome Odin Teatret, e da sua ISTA – International School of Theatre Antropology

10 - Dá aulas de teatro há quantos anos e onde?
R - A formação e, em particular, as aulas de teatro no ensino regular, começaram relativamente cedo, na minha vida profissional. Tive a primeira oportunidade em 1988, na então Escola Secundária da Camarinha, hoje D.João II. Depois, ainda, passei pela ES do Viso, hoje Lima de Freitas, e por diversas instituições, nomeadamente do ensino profissional, em vários pontos do distrito, bem como em Lisboa. Elas foram sempre um local de experimentação e uma fonte de inspiração. Mas foram também um modo de garantir a “liberdade” financeira que sustentou, durante muitos anos, a “arriscada” profissão de actor e encenador. A precariedade profissional, aliada a uma vontade sincera de promover as práticas do teatro nos jovens, fizeram com que me dedicasse durante cerca de vinte anos à actividade de professor. Desde 1997, colaboro com a Escola Superior de Educação de Setúbal, ainda e sempre, na área da Expressão Dramática e do Teatro.

11 - Os jovens e a população em geral de Setúbal interessam-se por teatro?
R - Muita coisa está errada, no âmbito da relação do teatro com o público e vice-versa. Não temos feito as perguntas certas, que correspondam às mudanças, às lógicas e dinâmicas sociais. Falamos de alterações sociais, de novos meios de comunicação e informação, de grandes superfícies, etc. e continuamos com um teatro enclausurado entre quatro paredes escuras, com pouca ou nenhuma relação com a imagem, com reduzida capacidade para tornar visível a produção e o trabalho que realizamos. Faz-se muito mais e melhor do que aquilo que, em geral, os cidadãos conhecem. Quando apresentamos perguntam-nos se somos mesmo de Setúbal… recentemente apresentámos, nós o TE, um espectáculo sobre Ulisses numa escola e a recepção não podia ter sido melhor. O importante, aquilo que contribuiria para um desenvolvimento efectivo do teatro e das artes em geral era desdramatizar a situação e, com as diversas vontades reunidas, promovermos espectáculos, falarmos de teatro. Seria que os jornais, as empresas, as associações e colectividades, se desinibissem e convidassem as estruturas de teatro para apresentarem os seus espectáculos nas suas sedes, nas suas iniciativas…E sobretudo abandonarmos o “fado da desgraçadinha e do enjeitado” que nos tem impedido de realizar um caminho comum, como comunidade.

12 - Qual o ponto mais alto da sua vida artística até à data?
R - As últimas apresentações de Ulisses, numa escola básica.

13 - Qual o espectáculo que gostaria de montar no Teatro do Elefante?
R - O próximo espectáculo vai ser “A Cerejeira da Lua”, um conto tradicional de Macau, traduzido e adaptado por António Torrado.

14 - Faz-se bom teatro em Setúbal? Acha que há um bom entendimento entre todas as companhias da cidade?
R - Como deve ser óbvio para todos, o que se faz não é de um modo geral muito apelativo, ou pelo menos não mobiliza muitos espectadores. Mas eu acredito que se faça bom teatro em Setúbal! Neste momento, estou em crer que estão ultrapassados malentendidos e equívocos que, talvez por interesses obscuros de alguns, estranhos ao teatro, imperaram nesta terra. Pela nossa parte, TE, estamos empenhados em promover o maior número de encontros que proporcionem as trocas de ideias e que, ao mesmo tempo, possam alimentar a diversidade das propostas.

15 - A grande carência do Teatro do Elefante são a falta de ajudas financeiras?
R - Nunca o afirmámos, nem consideramos que a resolução dos aspectos financeiros resolvam todos os problemas do TE. As políticas culturais são (devem ser, na minha opinião) bem mais abrangentes. É necessário que se olhe para as práticas e iniciativas teatrais no nosso concelho como actividades económicas que podem integrar projectos mais vastos de âmbito turístico, de desenvolvimento local e regional, ou noutros campos como o social e o económico, em geral. Quando assim se pensar, sobretudo ao nível dos responsáveis políticos, então poderemos falar de um sistema de teatro. Nessa altura, a própria sociedade (o Estado e as Famílias, os consumidores culturais) sustentará a actividade, tanto em termos financeiros como ao nível dos públicos. Alguns passos estão a ser dados neste sentido. O incremento de espectáculos de teatro em eventos municipais é um factor importante na mudança de atitude. Temos verificado nos últimos tempos que a autarquia se tem esforçado para introduzir este “elemento inovador”. Tanto o impacto como os eventuais resultados na sociedade serão aferidos pelas próximas gerações, mas na minha opinião vale a pena colaborar e participar.

16 - O Teatro do Elefante tem cumprido os seus objectivos? Porquê?
R - A insatisfação é uma regra e talvez um critério de vida para quem faz teatro. No entanto, de um modo geral, posso afirmar que estou satisfeito com a evolução do TE. Os altos e baixos são normais e fazem parte da vida regular de um “empreendimento”, nesta área como noutra qualquer. O futuro é feito no presente, e neste presente estamos empenhados em produzir os melhores trabalhos, fazer as melhores montagens e encenações teatrais que sabemos e podemos realizar. Isto é, para mim, o mais importante e uma razão para que acorde todos os dias a pensar que estou a cumprir a minha missão.


 

INOVAR NO LOCAL, PROJECTAR NO GLOBAL OU O OVO DE COLOMBO

COMUNICAÇÃO APRESENTADA NO 2º ENCONTRO DO ASSOCIATISMO DE SETÚBAL
Estou aqui diante de vós para falar um pouco da experiência de vida do TE. Relatar num curto espaço de tempo um trajecto que tem vindo a conquistar cada minuto, cada segundo da minha própria vida… Nada há mais complexo para mim, que estou envolvido no projecto até ao mais fundo “âmago da questão”. Pouco ou nada se me afigura mais difícil do que a abordagem deste tema, perspectivando-o globalmente. Interferem, dificultando esta minha ambição de alcançar uma visão global, a intensidade e o género da experiência. Vou, todavia, procurar ser sucinto mas sinto-me no dever de antes avisar que, na mesma medida, serei pouco objectivo nos dados e reflexão que aqui vou apresentar. Este processo, o de diariamente cuidarmos de um ser vivo (pois um teatro vive: respira, defeca, chora e ri como faz a gente…), é um processo construído de cumplicidades, de emoções, não podendo expressar-se de um modo diverso do da paixão.
Falar do Teatro do Elefante é falar de 10 anos de actividade regular, um caminho realizado desde 1997 até ver…, no âmbito da criação, produção e animação de espectáculos ou eventos culturais, de um modo mais genérico. É também falar de muitas e diferentes acções de formação, dirigidas a públicos de diversas idades, estratos ou estatutos sociais. De viagens…, dos teatros e das ruas que animámos... é falar de parcerias e de “estórias” - umas já contadas, outras ainda por contar…
Desde cedo, desde as origens, nos finais do ano de 1997, que estamos empenhados em estabelecer parcerias, em desenvolver permutas, em criar laços de cumplicidade com outros independentemente da sua origem, dos credos, dos projectos ou objectivos genéricos de cada um. Estes laços foram gerando, por seu turno, e no decorrer dos anos, outros laços e outras cumplicidades, multiplicando-se naturalmente. Reuniram-se dessa forma diferentes sinergias que cresceram e, sobretudo, que alimentaram um projecto de teatro para todos sem qualquer tipo de distinção ou discriminação, designado por TE.
Desse projecto, trago aqui alguns traços de carácter e acção.
Comecemos, então, por um bom exemplo de parceria (e também de “estórias” de teatro…), para desenvolver a partir dele as linhas fundamentais de uma atitude perante a arte, a cultura e a cidade (e os cidadãos! obviamente). Estreámos no dia 10, do mês que está a decorrer, o espectáculo que montámos nos últimos meses com o grupo de teatro jovem da APPACDM de Setúbal. Encenámos e apresentámos com esse grupo uma versão das aventuras e desventuras de D. Quixote de La Mancha, obra escrita no século XVII por Cervantes.

A escolha do texto correspondeu a uma redescoberta da obra, a uma espécie de luz nova que a tornou perturbadora e, acima de tudo, pertinente nos dias que correm. Mais ainda, essa (re)leitura permitiu-nos tomar D. Quixote nas mãos, na Razão e no coração, como metáfora dos nossos tempos.
E daqui salto imediatamente para as “estórias” que fazem a memória do teatro, a memória que trago comigo para partilhar convosco. Faço-o para vos alertar, em primeiro lugar, para a extrema actualidade desta narrativa, ela fala de um velho, natural de e residente em uma aldeia tradicional, homem (certamente) abastado, encerrado nos seus livros de cavalaria, que combate exércitos-rebanhos, moinhos-gigantes e outras ilusões.
Tal como D. Quixote, o mundo ocidental envelheceu, é composto por pessoas cada vez mais solitárias, abastadas (por comparação com o outro hemisfério, o do sul) e individualistas. E também, tal como o cavaleiro de LaMancha, este hemisfério que habitamos está preso aos seus “livros de cavalaria”. Basta substituir esses mesmos “livros de cavalaria” pelos media e pelas tecnologias de informação e comunicação, de que os cidadãos europeus (entre outros…) estão, há muito, muito dependentes para entender o que quero dizer. Esses são os meios globais-globalizadores cuja funcionalidade se resume, em grande parte, à criação de universos virtuais substituindo a realidade material e, por conseguinte, afastando-nos da experiência física - que é como quem diz, dos odores e das rugosidades da vida. Universos de sonho, de ilusão, que podem facilmente conduzir-nos a estados de alienação do real. Tal como aconteceu com D. Quixote, da aldeia de La Mancha, a nossa aldeia (dita global) surge-nos com cada vez maior frequência como um mundo perdido e perverso. Um mundo em que monstros e dragões sobrevoam e atacam a civilização, enclausurando inocentes em altas torres. Um mundo, por conseguinte, a necessitar urgentemente da intervenção de um “cavaleiro andante”, ou melhor de um qualquer polícia-robot capaz de “regenerar os espíritos” através do castigo dos corpos. Sobretudo se esses corpos forem de árabes-muçulmanos, de comerciantes chineses ou ainda de alguma “minoria” de pele escura.
Nós, lá pelos lados do TE, procuramos um outro rumo para os nossos destinos na Terra. Não perdemos de vista a vida e o mundo, mas não nos deixamos perder nessa vida difícil de gerir e nesse mundo de medos e sem solução previsível.
Uma das referências que vos trago, dentro das várias produções do TE, é o teatro para bebés. Neste campo, fomos pioneiros no nosso país, e ainda alargámos essa experiência a Belgrado, a capital da Sérvia, e a Espanha, tendo tido oportunidade de representar com diversos projectos um pouco do teatro que se faz em Portugal, e em particular em Setúbal, em festivais e feiras de teatro.
Uma população envelhecida tem nas crianças, em particular nos bebés, a sua maior riqueza: a certeza do futuro! Encontramos aqui, na minha opinião, neste pressuposto, uma das razões para o interesse demonstrado por todo o país, de Bragança a Loulé, pelos projectos para os mais pequenos dos indivíduos humanos, refiro-me a bebés a partir dos três meses que constituem o público-alvo desses espectáculos. Tudo começou a 1 de Junho de 2003, já lá vão mais de quatro anos, nas instalações cedidas pela CMS ao TE, no parque do Bonfim. O título do espectáculo era (e continua…) Blim Zim Zim, um jogo de sons a sugerir a brincadeira que se desenrolaria a seguir, no teatro. Já em Março de 2007, estreámos um segundo projecto no mesmo âmbito, dirigido em primeira instância aos bebés: Ipinêspês.

Como é facilmente observável, os bebés são acompanhados pelas famílias: mães, pais, irmãos e primos mais velhos, e também por muitos avós orgulhosos de participar na construção do futuro, do nosso futuro colectivo.
Uma outra área de trabalho, desde sempre um dos campos privilegiados de trabalho do TE é o teatro de rua. Este é um terreno em que prioritariamente juntamos outras artes, nomeadamente a música (tocada ao vivo…)

Na rua, nas ruas vamos ao encontro dos espectadores. No entanto, este teatro interactivo e esta forma de procurar ir ao encontro do público, não se esgotam na via pública. Pelo contrário, ela expande-se pelos locais de convívio e de lazer, ou ainda pelas escolas.
Chegámos ao ponto a que eu queria chegar para podermos conversar um pouco sobre contos tradicionais, sobre contadores de histórias e sobre modos de interacção entre actores e espectadores. Há quem afirme, por vezes com alguma nostalgia, que a tradição já não é o que era. No entanto, o ser humano não mudou no essencial. Gostamos de ouvir contar histórias desde a nossa origem. Inventamos e contamos e recontamos histórias desde os confins da História (esta com H maiúsculo), ou talvez antes quando os nossos antepassados ainda apenas gesticulavam para comunicar.
A Sopa da Pedra é daquelas histórias que todos conhecemos, mais, é um dos factores de identificação dos portugueses com a sua própria cultura. Trata-se da história do frade que vinga a sua fome, comendo um condimentado caldo em casa de lavradores avarentos e que se mostram, por causa dessa sua característica, pouco ou mesmo nada solidários e incapazes de partilhar alguma parte dos seus bens. O conto, assim como a sopa, vai evoluindo com e para os pequenos espectadores como um jogo de descobertas em que os truques de magia, os objectos e os cheiros, tantas vezes desconhecidos dos mais novos, possuem um espaço próprio e adequado para estimular a criatividade. E creio que todos concordamos que não há inovação sem o desenvolvimento da criatividade. Nem há futuro sem a inovação, nem inovação sem o sentido e noção do passado, da História. É na cultura tradicional que podemos encontrar as respostas para o presente, se quisermos e soubermos entendê-la no contexto contemporâneo. Em A Sopa da Pedra, tal como em outros projectos do TE desenvolvidos em torno das raízes e da tradição popular, procuramos fazer este exercício de actualização, em interacção permanente com os jovens espectadores. Tudo para falar claro e das coisas que nos interessam, que constituem no conjunto as nossas preocupações como cidadãos, na cidade e no mundo.

Já na Casa do Elefante, em Aranguês, ousamos viajar com Ulisses, o herói grego que faz guerra a Tróia contrafeito e que no regresso a casa, a ilha de Ítaca, é forçado a passar provas inimagináveis até poder reencontrar a sua família e um povo que o aclama como bom governante, contra um conjunto de pretendentes grosseiros e tiranos que esbanjavam as riquezas da ilha e tinham provocado a guerra civil. Espaço cénico e figurinos foram concebidos para estimular diversas leituras da história, bem como para sugerir a intemporalidade, tanto da acção como das situações, em Ulisses.

Este espectáculo, concebido para o público com mais de oito anos idade, consiste noutra forma de ir ao encontro dos espectadores pois uma das obras que lhe deram origem – Ulisses, de Maria Alberta Meneres - consta na relação de livros seleccionados pelos responsáveis do Plano Nacional de Leitura, programa de incentivo e promoção da leitura que as bibliotecas públicas, as escolas, os professores e os educadores seguem de perto e com a devida atenção. O espectáculo foi recentemente instalado no Auditório de uma escola de 2ºciclo, em Setúbal, onde foi apresentado em nove sessões, abrangendo todas as turmas de 6ºano. Esta representação teve a vantagem de apresentar uma perspectiva alternativa à leitura do livro em papel. A encenação pôde ainda ser debatida com os alunos-espectadores após cada apresentação. Assuntos e temas como a mitologia e os heróis gregos, a guerra, e até as práticas e as condições de produção do teatro em Portugal foram tratados nessas conversas (muito informais) entre público e artistas.

Designamos a temporada que decorre neste momento como Ano do Ovo. Para nós, o percurso do TE tem muitas semelhanças com a história do ovo que Colombo terá conseguido manter de pé sem o auxílio das mãos ou de qualquer utensílio (desses novos…) de cozinha, mas apenas pelo seu génio ou esperteza. A história é contada pelo povo e diz-nos (por outras palavras) que a solução para um grande problema pode estar no jeito de fazer virar o destino a nosso favor ou, então, num simples gesto de antecipação. Mudar o destino no teatro significa, acima de tudo, muita determinação, muito estudo de novas formas de representação, novos modos de chegar aos espectadores nossos contemporâneos. Mas também de respeito pelos seus saberes, pela cultura que é nossa, de todos.

Propus-vos fazermos uma rápida viagem entre D. Quixote e Cristóvão Colombo. Ambos viajantes e homens de muitas aventuras. O primeiro cavalgou, lutou contra falsas imagens e perdeu-se na sua loucura, foi guiado pela ilusão. O segundo foi persistente e determinado, conduziu e realizou um sonho. O primeiro foi imaginado pelo escritor espanhol Cervantes. O segundo era um homem de carne e osso, tal como nós.
A escolha está nas nossas mãos!

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

 

Dez anos de Teatro do Elefante

Trazer para uma mesa o percurso de dez anos de actividade (e, para agravar a situação, reduzir toda a informação acumulada a uma apresentação de dez minutos) é, claramente, uma tarefa impossível. Impossível por diversas razões. Em primeiro lugar, porque a memória retém apenas os sinais mais significativos perdendo outros quiçá tão ou mais importantes para uma abordagem satisfatoriamente objectiva das matérias em causa. Em segundo lugar, porque essa mesma objectividade não se deixa capturar facilmente, como numa fotografia instantânea. E em terceiro lugar, porque…enfim seria exaustivo continuar a enumerar as razões que me levaram a fazer ouvidos (um pouco) surdos à proposta da organização. Vou, por conseguinte, concentrar-me em meia dúzia de questões que me preocupam desde há algum tempo – talvez há dez ou mais anos…

Nasceram, cresceram ou desenvolveram-se nestes últimos tempos alguns mitos sobre a actividade cultural e, em particular, acerca da criação artística que eu vou procurar desmistificar. Muitos deles resultam das condições específicas do estádio de desenvolvimento das sociedades ocidentais: fruto das novas ordens neo-liberais. Outros derivam de uma nova realidade que levou a que o teatro já não pertença à cidade, isto é à polis, sofrendo as inevitáveis consequências.

Um dos primeiros, entre esses mitos, é o lugar-comum que “em tempos de crise reduzem-se as despesas com a cultura” ou, dito por outras palavras, que “as famílias não podem continuar a despender parte do seu (reduzido) orçamento com a cultura, pois os parcos cobres têm de ser gastos em bens de primeira necessidade”, daqui derivando todos os problemas da “crise” actual do teatro. No entanto, a História mostra que esta é uma falsa questão. As famílias, como os economistas gostam de chamar ao cidadão comum, nunca cobriram integralmente os custos de uma montagem teatral através do consumo, isto é através da compra de ingressos para os espectáculos. As artes dramáticas, aliás a exemplo de outras práticas artísticas, viveram sempre das contribuições de benfeitores ou de patrocinadores, e nunca das bilheteiras. As salas pertenceram sempre a particulares, aos senhores da terra, ao Estado ou aos municípios. Os artistas venderam sempre a sua arte a patronos, engordados pelo trabalho das famílias, ou àqueles que governavam as suas cidades, e geriam os impostos pagos pelas mesmas famílias. Esta foi sempre a regra. A realidade está aí para contrariar a fábula da formiga e da cigarra, impondo de modo natural um compromisso de solidariedade social, com base no valor da troca. As “cigarras-artistas” retribuíram sempre o pão fornecido pelas “formigas-produtoras”. Alimentaram, à sua maneira, as comunidades onde viveram, contribuindo para fazer aumentar o património, material e simbólico, das sociedades humanas. Esse compromisso, no meu ponto de vista, não pode ser corrompido nem negligenciado, pois pode custar caro principalmente às gerações futuras.

Mas ainda assim há quem insista, e afirme que “a cultura não pode continuar a depender dos apoios estatais”. É verdade que houve, noutros tempos, quem tivesse tentado proibir os teatros, fechar as galerias de arte ou encerrar as livrarias. Houve mesmo quem prendesse, quem torturasse, quem matasse. Mas o teatro continuou a contestação. A música ajudou a ultrapassar a dor e o silêncio forçado pelas censuras. A pintura registou para sempre o esforço e a alegria, até no trabalho. A memória não morreu… Por todas estas razões, eu sou daqueles que afirmam que a democracia precisa dos artistas e da actividade cultural, em geral, e que é um dever do Estado democrático garantir o financiamento das actividades artísticas e criativas. Mais, urge criar um sistema público-estatal de teatros. Um sistema que ultrapasse o mero agenciamento intermediário de espectáculos privados com os órgãos autárquicos. Um sistema que contemple teatros nacionais, assim como companhias estáveis regionais e municipais.

Por outro lado, na mesma linha de lugares-comuns temos os mitos de carácter local. A este nível ouve-se dizer, de modo recorrente, que “não há actividade cultural em Setúbal”. Na minha opinião, a questão está mal formulada. Ela existe. O que acontece é que essa oferta cultural, no conjunto e em geral, não é suficientemente apelativa e, por conseguinte, torna-se frágil no que diz respeito à mobilização dos diversos públicos existentes na cidade e no concelho. Na sequência da primeira destas “convicções” é, também, vox populi que “não há público para a cultura, em Setúbal”. Este é outro dos mitos locais a que, francamente, não dou muito crédito. As grandes iniciativas – como o Carnaval ou as Marchas Populares - mantêm um forte apelo junto das populações, e mobilizam muitas centenas ou mesmo milhares de pessoas, há já vários anos. As Comemorações do 10 de Junho nesta cidade, as diversas festas das freguesias, o Festróia ou a Festa do Teatro são acontecimentos culturais que demonstram, alguns de forma contínua, serem capazes de fazer “largar o sofá”. Mobilizam grandes franjas de pessoas para esses eventos, para as chamadas formas de consumo (ou fruição) cultural “fora de casa”. Quer se goste ou não da qualidade e do teor de alguns desses eventos, a verdade é esta. É verdade, também, que referi sobretudo práticas e/ ou projectos concebidos para grandes massas, como são os eventos mais populares, ou de concentração de recursos, como acontece quando se trata de um festival. Por estar consciente deste facto, considero necessário e urgente reflectir e procurar respostas, a curto prazo, para o desenvolvimento de outras práticas. Torna-se necessário, por conseguinte, procurar as perguntas certas para saber como conseguir obter mais espaço público e mais visibilidade para projectos, práticas e experiências de proximidade. Para práticas artísticas direccionadas para todos mas em pequenos grupos, tal como fazemos questão de manter os espectáculos de teatro para bebés, por exemplo. É necessário saber como (e o que deve ser feito para) tornar apelativa e mobilizadora a prática diária, contínua e essencial, do teatro. Como agir-intervir junto dos diversos públicos para os conquistar e, assim, alargar (em número) as apresentações de cada espectáculo, condição necessária para conseguir a sua “rodagem” e atingir o “amadurecimento”. Estas são algumas das questões que, na minha opinião, devemos enfrentar pelos “cornos”.

Outro dos mitos mais correntes é a presunção que “tudo se resolve com planos de marketing”. Para mim, o marketing é uma espécie de quinta dimensão… através de campanhas de marketing foram produzidos nas últimas décadas os universos imaginários (isto é, as imagens) que nos encheram a vida de “experiências de vida”. Imagens que são, muitas vezes, vazias de conteúdo. Muitos especialistas e profissionais do marketing prometem viagens sem odores, sem as cores da natureza…sem o risco de arranhões provocados pelos espinhos das rosas… eu diria que prometem experiências sem a experiência! Dedicam-se à produção de mundos imaginários que acabam por substituir o objecto material, criando no entanto a ilusão da “propriedade” e do sucesso fácil. Não pretendo escamotear esta realidade objectiva, a que chamamos marketing e publicidade, nem a importância daquilo que considero constituir (apesar disso) uma das características mais significativas dos tempos que correm, em particular dos modelos de desenvolvimento do mundo ocidental, a promoção de bens e produtos. Procuro, todavia, proporcionar aos espectadores do TE um universo bem distinto da mera substituição virtual. Na prática do TE integramos a interacção, a possibilidade do toque ou do contacto físico entre actores e espectadores e, à presença física de emissores e receptores do espectáculo, juntamos a utilização de novas tecnologias como media privilegiados. Como recursos que permitem amplificar-dilatar a presença dos actores, tanto a plasticidade do corpo em situação de representação como as vozes, em cena. E, contudo, precisamos de publicitar o nosso trabalho… Não produzimos detergentes, pelo que a oferta e distribuição de amostras dos produtos (ainda que o desejássemos…) ser-nos-ia impossível. Contamos, por conseguinte, com os parceiros, com as diversas instituições e associações com que colaboramos, os vários parceiros de projectos específicos. Contamos com os órgãos de comunicação social, através do cumprimento das suas funções de informar, mas também de formar! Contamos com os responsáveis e os representantes dos cidadãos nos órgãos de deliberação política, na definição de políticas que contribuam para a valorização da actividade cultural-artística. Contamos com os promotores de eventos, públicos ou privados, e também com o terceiro sector, o das cooperativas como nós, dos colectivos e organismos de base social diversificada. São estas as organizações capazes de mudar o rumo ao destino, de virar do avesso as ideias-mitos e os lugares-comuns que ensombram o diálogo entre a criação artística contemporânea e os seus espectadores, geram os mais variados obstáculos que se opõem à livre fruição cultural e ao desenvolvimento das expressões artísticas.

Por estas razões o TE não podia deixar passar esta oportunidade, propiciada pelos primeiros dez anos da nossa actividade regular, para os desafiar a entrar na conversa…a todos aqueles que contribuíram para estas Mesas das Artes o nosso muito obrigado!
Fernando Casaca

Quinta-feira, Maio 31, 2007

 

The Great Dragon's Parade - O TeatrodoElefante em Cracóvia

Depois dos animados workshops na ESE em Setúbal (Escola Supeiror de Educação) e da maravilhosa viagem a Dublin onde participámos no Saint Patrick's Festival em cima das pernas altas do Diabo e dentro dos dragões marinhos a distribuir festa pelas ruas e pelos irlandeses, voltamos ao encalce dos Dragons.

Amanhã é o grande dia da partida para um dos eventos mais importantes do projecto internacional que temos abraçado desde o último trimestre de 2006. Amanhã partimos, de malas e bagagens, para Cracóvia (Polónia) onde iremos desfilar, mais uma vez, com as nossas figuras num dos acontecimentos mais importantes daquela cidade. Uma parada gigantesca de figuras de todas as cores e formas que se juntam nas ruas e trazem de volta memórias de tempos ancestrais.



Este projecto tem proporcionado ao TeatrodoElefante experiências interessantes naquilo que caracteriza a nossa companhia: a itinerância. A possibilidade de cruzar conhecimentos, ideias e aprender a comunicar de diferentes formas com outros criadores e profissionais desta arte que é o Teatro, a performance e todo o trabalho que se desenvolve com o corpo.

Tem sido um trabalho progressivo e, por isso, mais dificil, mas que nos tem posto em contacto com as nossas capacidades de criação e inovação, tentando ultrapassar as nossas limitações e alguns obstáculos que acabam sempre por surgir nos momentos da criação. O Work in Progress, que é a forma como temos vindo a trabalhar neste projecto, tem-nos permitido isso: a sucessão de avanços e recuos. E por vezes, é preciso recuar para avançar mais um pouco, destruir e criar de novo. No fundo, é o que temos tentado ao longo de estes 10 anos de trabalho: destruir, criar de novo e evoluir.











Quinta-feira, Maio 24, 2007

 

IpinêsPês - Teatro para Bébés vai até Alijó

Olá Amigos,

Este fim de semana, mais precisamente no dia 27 de Maio, Domingo às 16.00, o IpinêsPês vai estar na sala do Teatro Auditório Municipal de Alijó.


Lá vos esperamos!




Segunda-feira, Maio 14, 2007

 

Blim Zim Zim na Casa do Elefante



O trabalho do TeatrodoElefante tem sido essencialmente ao nível da itinerância. Está-nos no sangue: andar por aí, de terra em terra, nas ruas e nas praças das cidades, a olhar nos olhos das pessoas que assistem aos nossos espectáculos, a falar com as gentes tão diferentes que encontramos em cada local onde vamos.

Mas não é só na rua que encontramos essa proximidade junto das pessoas; o teatro para bébés, mesmo sendo um espectáculo de interior, também nos tem proporcionado esse contacto próximo com as pessoas. Temos levado o 'IpinêsPês' ao calor das salas de teatro ou das bibliotecas um pouco por todo o lado e sentimos, de facto, uma ambiência familiar que estabelecemos com aqueles que nos procuram e que trazem os bébés até nós. Mas não só os bébés, também os pais e os avós.

Queremos que esse ambiente também se viva aqui na Casa, como de resto já tem acontecido outras vezes. Nos próximos dias 20 de Maio às 11.00, 23, 24 e 30 de Junho às 11.00 e dia 1 de Julho às 11.00 vamos trazer o Teatro para Bébés, desta vez apresentando o primeiro espectáculo de teatro para Bébés 'Blim Zim Zim'.Vamos lançar o convite a todos os que queiram visitar-nos e participar desse convivio entre gerações, trazendo os bébés, os pais e os avós.

Enquanto o espectáculo não começa, podem aproveitar para contemplar também a exposição em mostra na Casa do ELefante intitulada 'O Teatro para Bébés pela objectiva' com fotografias de Sandra Ferrás e Mónica Martins do Clube de Fotografia de Setúbal que também têm colaborado connosco regularmente. Estes trabalhos são o reflexo dessa proximidade que se vive com o público, em que as emoções e os afectos se sentem à flor da pele.

Cá vos esperamos!


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